Rito católico e imagem da enfermeira (1957)7

Misa católica e imagen de la enfermera (1957)

Catholic Mass and the Nurse's Image (1957)

Recibido: 1 de octubre de 2013
Enviado a pares: 12 de octubre de 2013
Aceptado por pares: 14 de noviembre de 2013
Aprobado: 14 de noviembre de 2013

Maria Fernanda Simiele1
Luciana Barizon-Luchesi2
Fernando Porto3
Tatiana Oliveira-Sousa4
Emiliane Silva-Santiago5
Simone Aguiar6

1 Enfermeira. Mestranda do Enfermagem em Saúde Pública, Universidade de São Paulo, Brasil.
fernandasimiele@gmail.com

2 Enfermeira. PhD. Professora Doutora, Universidade de São Paulo, Brasil.
luchesi@eerp.usp.br

3 Enfermeiro. PhD. Pós-doutor de Enfermagem. Professor Adjunto, Escola de Enfermagem Alfredo Pinto/Unirio, Brasil.
ramosporto@opelink.com.br

4 Enfermeira, Mestranda do Programa de Enfermagem Psiquiátrica, Universidade de São Paulo, Brasil.
tatiana.sousa@usp.br

5 Enfermeira. Doutoranda do Programa de Enfermagem Psiquiátrica. Professora, Comunidade do Curso de Graduação em Enfermagem, Brasil.
emilianesant@usp.br

6 Enfermeira. Mestranda do programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Escola de Enfermagem Alfredo Pinto-Unirio, Brasil.
siaguisil@yahoo.com.br

7 Artigo extraído de projeto intitulado "Origens da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto sob a Ótica de Glete de Alcântara". Fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo 2008/10170-2.

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Simiele, M. F., Barizon-Luchesi, L., Porto, F., Oliveira-Sousa, T., Silva-Santiago, E., Aguiar , S. (2014). Rito católico e imagem da enfermeira (1957). Aquichan, Vol. 14, No. 1, 109-118.


RESUMO

Objetivo: analisar a imagem da enfermeira na ritualística de missa de formatura, da primeira turma da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) em 1957. Métodos: o texto imagético foi analisado à luz de Pierre Bourdieu e da literatura sobre rito, moda, linguagem corporal, História do Brasil e da Enfermagem. Resultados: foram localizadas duas imagens no acervo histórico institucional que atendiam os critérios de inclusão. O rito de missa de formatura deu-se em 21 de dezembro de 1957, às 8h30 da manhã intitulada "Missa Solene em Ação de Graças, na Capela Sagrado Coração de Jesus, da Santa Casa de Misericórdia de Ribeirão Preto". Conclusão: os signos instituídos no rito de missa de formatura foram o uniforme, a touca, a demarcação com tecido claro do espaço entre as formandas e o público, o que constituiu um espaço de distinção social. Soma-se, ainda, a hexiscorporal que transparece seriedade e pureza, e colabora para a constituição da nova imagem da enfermeira diplomada em Ribeirão Preto. As contribuições deste estudo dão-se na ampliação das discussões sobre a construção da imagem da enfermeira, identidade profissional e influência católica na formação do enfermeiro.

PALAVRAS-CHAVE

História da enfermagem, comportamento ritualístico, enfermagem, escolas de enfermagem, simbolismo (fonte: DeCS, BIREME).

RESUMEN

Objetivo: analizar la imagen de la enfermera en el ritual de misa de graduación de la primera clase de la Escuela de Enfermería de Ribeirão Preto de la Universidad de São Paulo (USP) en 1957. Método: las imágenes fueron analizadas a la luz de Pierre Bourdieu y de la literatura sobre rito, moda, lenguaje corporal, Historia de Brasil y de la enfermería. Resultados: han sido ubicadas dos imágenes en la colección histórica institucional que respondían a los criterios de inclusión. El rito de misa de graduación fue celebrado el 21 de diciembre del 1957 a las 8:30 de la mañana, titulado "Misa Solemne en Acción de Gracias, en la Capela Sagrado Coração de Jesus, de la Santa Casa de Misericórdia de Ribeirão Preto". Conclusión: los signos instituidos en el rito de misa de graduación fueron el uniforme, la toca, la demarcación con tela clara del espacio entre graduandas y público, lo que constituye espacio de distinción social. Además, la héxiscorporal revela seriedad y pureza, y colabora hacia la constitución de la nueva imagen de la enfermera diplomada en Ribeirão Preto. Este estudio contribuye con la ampliación de las discusiones sobre la construcción de la imagen de la enfermera, identidad profesional e influencia católica en la formación del enfermero.

PALABRAS CLAVE

Historia de la enfermeira, conducta cerimonial, enfermería, escuelas de enfermeira, simbolismo (fuente: DeCS, BIREME).

ABSTRACT

Objective: The purpose of the study is to analyze the nurse's image during the commencement mass for the first graduating class of the Ribeirão Preto School of Nursing at the University of São Paulo (USP) in 1957. Methods: The images were analyzed in light of the thinking of Pierre Bourdieu and the literature on rites, fashion, body language, the history of Brazil and the history of nursing. Results: Two images that meet the criteria for inclusion were found in the institution's historical collection. The graduation mass was celebrated on December 21, 1957 at 8:30 a.m. and was entitled the Solemn Mass of Thanksgiving in the Chapel of the Sacred Heart of Jesus at the Ribeirão Preto Holy House of Mercy. Conclusion: The signs instituted in the graduation mass include the uniform, the cap and the space between the graduates and the public, which was marked with clear fabric and denotes an area of social distinction. In addition, the corporal héxis reveals seriousness and purity, and helps to establish the new image of the graduate nurse in Ribeirão Preto. This study serves to broaden the discussion on construction of the nurse's image, professional identity and the Catholic influence in nursing education.

KEYWORDS

History of nursing, ceremonial behavior, nursing, schools, nursing, symbolism (source: DeCS, BIREME).



Introdução

O objeto de análise do estudo é a imagem das enfermeiras na ritualística da missa católica, que antecedeu o rito de formatura, da primeira turma da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (EERP-USP), em 1957.

No Estado de São Paulo, a Fundação Rockefeller teve papel importante no processo de criação das escolas de Enfermagem da usp. Com o objetivo de colaborar na estruturação da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EE-USP), criada anexa à Faculdade de Medicina (FM-USP), em 1942, a referida fundação ofereceu seis bolsas de estudo (quatro efetivamente utilizadas) para graduação em Enfermagem, no exterior, de educadoras sanitárias (1). Entre as bolsistas estava Glete de Alcântara, que se graduou em Enfermagem Geral e Enfermagem de Saúde Pública junto à Faculty of Nursing (atual Lawrence S. Bloomberg), da University of Toronto (1944). Em 1951, recebeu o título Master of Arts pelo Teacher's College, Columbia University, e licenciou-se em Ciências Sociais na USP em 1952 (2).

Em 26 de dezembro de 1951, sob a Lei Estadual 1.467, foi aprovada a estrutura didático-administrativa da Faculdade de Medicina, na cidade de Ribeirão Preto (FMRP-USP), e, no artigo 13, criada, em anexo, a EERP-USP, que deveria seguir o modelo da EE-USP e manter cursos de Enfermagem e de Auxiliar de Enfermagem (3).

Em 1952, o Prof. Dr. Zeferino Vaz, designado como diretor da FMRP-USP, convidou a Prof.a Glete de Alcântara para instalar e dirigir a EERP-USP, após indicação do Prof. Paulo César de Azevedo Antunes, então diretor da Faculdade de Higiene e Saúde Pública da usp, conforme consta em ata da 312a Sessão do Conselho Universitário da USP, de 5 de março de 1952. Contudo, somente em agosto de 1953 foram iniciadas, efetivamente, as atividades da EERP-USP.

A figura da enfermeira diplomada era pouco conhecida no cenário sociocultural de Ribeirão Preto e praticamente inexistente. Portanto, a instituição desse profissional provavelmente representou grande desafio à sua diretora, que necessitava, para o recrutamento de estudantes, se fazer ver e se fazer crer nesse espaço social (4).

Nessa perspectiva, após quatro anos de formação no curso de enfermagem, teria chegado o momento de apresentar à sociedade de Ribeirão Preto as primeiras enfermeiras oriundas da EERP-USP, apresentação feita de forma acadêmica, por meio do rito de imposição de grau, ocorrendo antes uma missa. Entende-se, para o presente estudo, que ambos compuseram o rito de formatura.

O rito acadêmico de formatura é composto de microrrituais, dentre eles: a entrada dos formandos, chamada nominal, acendimento e passagem da lâmpada (símbolo da profissão), juramento, imposição de grau de Bacharelado em Enfermagem, homenagens e discursos.

Nesse sentido, já foi relatado na literatura a ritualística, bem como outros ritos que, direta e/ou indiretamente, envolvem a religião católica (5), o que despertou interesse como objeto de análise, em virtude da possível sacralização da profissão. Dito de outra maneira, há indício de que essa ritualística possa ter influenciado o mecanismo de construção da imagem da enfermeira brasileira que, na voz corrente, às vezes é conhecida como o anjo de branco.

O presente estudo teve como objetivo analisar a imagem da enfermeira na ritualística de missa de formatura, que antecedeu o rito de imposição de grau de enfermeira, da primeira turma da EERP-USP. As contribuições deste estudo para o avanço da área da Enfermagem dão-se no sentido de ampliar as discussões sobre a construção da imagem da enfermeira e da identidade profissional. Ademais, é uma possibilidade de se investigar o nexus que a religião católica, na década de 1950, teve na Enfermagem, em especial, nessa escola.


Método

Trata-se de estudo histórico sob a perspectiva da Micro-história, que parte do olhar microscópico ao manejar níveis de escala diferentes da mesma forma que na abordagem multiscópica, na produção das formas e das relações sociais (6).

A análise do objeto proposto teve o marco temporal referente a 21 de dezembro de 1957, dia da realização da missa de formatura. Para tanto, analisou-se fotografias de uma coleção do mesmo ano, pertencente ao Centro de Memória da EERP-USP, totalizando 53 fotos, das quais 28 são sobre a formatura da primeira turma de enfermeiras. Mediante o critério de inclusão de análise (presença das formandas na ritualística católica), foram selecionadas duas fotos que possuem a referência: "Serviço Fotográfico e Encadernação FOTO MIYASAKA - Ribeirão Preto", cujo fotógrafo responsável era Tony Miyasaka.

Para a análise do texto fotográfico, teve-se como base a matriz de análise, ajustada para o texto fotográfico com os seguintes itens: 1) dados de identificação (local do acervo, ano de impressão); 2) dados para o plano de expressão (crédito, relação texto/imagem, legenda, resumo do texto, tipo de foto, formato, plano, sentido); 3) dados para o plano de conteúdo (local e pessoas retratadas, tema, atributos pessoais/paisagem) e 4) dados complementares (5).

Para triangulação das fontes, além das fotografias, foram usados documentos, entrevistas coletadas junto ao estudo Origens da EERP-USP, sob a ótica de Glete de Alcântara, atas, livros e teses referentes ao assunto. A interpretação dos dados foi norteada pelas noções teóricas de Pierre Bourdieu, principalmente a de rito institucional e hexiscorporal, articulado a autores sobre rito, moda, linguagem corporal, História do Brasil e da Enfermagem.

Ressalta-se que a palavra "rito deriva de ritus, que significa ordem prescrita. Sua etimologia remete ao sentido de ordem seja do cosmos, relações deuses/homens ou homens/homens. No campo religioso, os termos "cerimonial e "ritual se entrelaçam. O termo "cerimônia" originalmente refere-se a ritos cívicos e solenes, ou seja, de origem profana (7).

O rito ou ritual refere-se a uma série de atos formais que possuem dimensão simbólica, com recorte espaço/tempo próprio, linguagens, signos e objetos próprios, cuja interpretação constitui um bem comum de um grupo (7), pode também ser entendido como um rito de instituição, quando consagra uma ordem estabelecida, ao levar aqueles que são transformados nesse ato a se comportarem da mesma forma como a representação do real se mostra (8).

A linguagem do corpo também foi referencial para análise por meio da hexiscorporal, entendida como postura corporal, aquela que pode determinar as relações do mundo social que representam as expressões ética e estética de determinada condição social (8). A moda foi entendida pelos trajes das formandas, pois a roupa constitui vocabulário e gramática próprios. A linguagem da moda, de acordo com o contexto cultural, não inclui apenas as vestimentas, mas também os acessórios, joias, decoração do corpo e maquiagem (9). Estes foram articulados ao contexto brasileiro e à História da Enfermagem Brasileira.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP/EERP-USP), em 2011 (1.299/2011), com previsão de uso de entrevistas do estudo Origens da EERP-USP, sob a ótica de Glete de Alcântara (CEP/EERP-USP/0970/2008). Houve autorização, para uso das imagens, dos indivíduos fotografados, do fotógrafo ou de seus herdeiros e da instituição.


Resultados e discussão

A primeira turma de formandas da EERP-USP foi constituída por cinco ingressantes em agosto de 1953 e cinco ingressantes em fevereiro de 1954, com rito de formatura em 21 de dezembro de 1957. A programação referida no convite de formatura consta que, às 8h30 da manhã, houve a "Missa Solene em Ação de Graças, na Capela Sagrado Coração de Jesus, da Santa Casa de Misericórdia de Ribeirão Preto , e, às 20h30, "Colação de Grau no Salão Nobre da Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (ACIRP).

Destaca-se que, na década de 1920, eram fortes os laços de apoio entre Estado e Igreja. Na década de 1950, sob as normativas dos dispositivos legais, o ensino religioso era matéria constituinte nas escolas públicas primárias, secundárias, com participação facultativa do estudante. Nessa perspectiva, 95% dos brasileiros, na década de 1940, declaravam-se católicos apostólicos romanos, com predomínio de adeptos do gênero feminino. O analfabetismo era de 56,8% (maiores de 10 anos); entre as mulheres, o índice era de 61,9% (10).

Apesar de o ensino religioso não ser obrigatório, era predominante sua influência no cenário brasileiro. Nesse sentido, infere-se que não deve ter ocorrido ao acaso a ritualista da missa como bênção às formandas, uma vez que estas, provavelmente, foram influenciadas para seguirem a doutrina católica.

A missa católica, como rito, tem o poder de transmitir uma tradição, cuja articulação envolve comportamentos de repetição, o que provoca sua compreensão dos fatos de forma compartilhada (7). Deduz-se que a missa católica possa ter sido uma atitude arbitrária pelas responsáveis institucionais, pois não cabe aqui afirmar que todas fossem católicas. Por outro lado, o rito pode ser entendido como forma de cortesia acadêmica, em virtude de parte do estágio das alunas ter sido realizado junto à Santa Casa de Misericórdia, o que contribuiria para reforçar os laços institucionais.

Sobre a missa, como parte integrante do ritual de formatura, tem-se registro, até o momento, que esta ocorre desde 1925, quando da formatura da turma pioneira da Escola de Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde Pública (EEDNSP), atual Escola de Enfermagem Anna Nery-UFRJ (EEAN). Foi realizada na Matriz da Candelária, no Rio de Janeiro (5), o que deixa transparecer ter sido incorporada como rito para as formandas que se estende até os dias atuais em muitas instituições.

O ato de registrar em fotografias momentos como a ritualística leva a se pensar na preservação da memória que o tempo é capaz de afastar, deixando lembranças distantes, ou até mesmo de apagá-las dos sujeitos que participaram. Nesse sentido, os ritos da enfermagem podem ser destacados em sua função de demonstrar, de forma homogênea, uma imagem respeitável que, intrinsicamente, dava visibilidade e promoção de status à profissão (11).

A Figura 1 refere-se à missa de colação de grau; as cores, em tons cinza, deixam transparecer ser flagrante, de composição grupal de homens e mulheres, no formato geométrico retangular e cenário natural interno. O texto imagético apresenta-se em plano geral e central, que possibilita a visão panorâmica de um dos lados da igreja no sentido horizontal.

O local retratado trata-se da Capela da Santa Casa de Misericórdia de Ribeirão Preto, dado triangulado com o convite de formatura e entrevistas. A imagem apresenta cinco formandas que trajam uniforme (da esquerda para a direita, são: Libânia Meirelles, Maria Anna Cerchiaro, Emília Luigia Saporiti, Odette Apparecida de Carvalho Bocchi e Carmem Sílvia Monteiro de Barros Martinelli) e outras dezenove pessoas, aproximadamente, de pé.

Destaca-se que, ao lado esquerdo, ao fundo, encontra-se uma freira, podendo-se inferir ser uma das Irmãs Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus, em virtude dos estágios realizados pelas formandas junto à Santa Casa de Misericórdia, o que se depreendeu de sua presença representar homenagem e/ou materialização dos laços institucionais.

Observa-se que as formandas trajam toucas de cor clara, aparentemente de modelo idêntico, pouco se pode inferir sobre o tamanho/penteado/corte dos cabelos em virtude da hexiscorporal e posicionamento da touca. Elas apresentam vestidos claros, compridos, provavelmente abaixo da altura do joelho, com mangas na altura do ponto médio do braço.

Por outro lado, não se observa uniformidade na modelagem do uniforme. Da esquerda para a direita, a 1a, 2a e 4a formandas retratadas apresentam modelagem semelhante de uniforme: vestidos claros, com uma pequena gola na altura do pescoço, com diferenciação na gola da 1a em relação às demais, com botões da cintura para cima, que acompanham a linha esternal anatômica e decote.

As 3a e 5a formandas, da esquerda para a direita, usam modelos distintos de uniforme em relação às demais: apresentam vestidos claros, compridos, completamente fechados, com uma pequena gola, que lembram desenho oriental e com, aparentemente, quatro botões, próximo à linha hemiclavicular esquerda.

O vestido em referência trata-se de uniforme na cor branca, foi usado como possível traje de gala e na vida profissional. O uniforme trata-se da extrema imposição do outro sobre a forma de vestir. Ao trajá-lo, o indivíduo abdica de sua autonomia e está, de certa forma, sob censura. Esse traje, por outro lado, tem o poder de conferir confiança e dignidade, podendo ser um mecanismo de representação simbólica e identificação de um determinado grupo social, com sua respectiva posição hierárquica (9).

No excerto de três entrevistas, foi identificado o rigor disciplinar para o comportamento, a distinção entre o uniforme da estudante e da enfermeira e cuidados com excesso de adornos:

[...] O uniforme da escola... a gente usava aquele uniforme cinza, quando era estagiária. Somente depois de formada é que passa a usar branco. Depois o uniforme era vestido branco e a touca [...] (Formanda 1). [...] Então a gente tinha uma disciplina em tudo, o cabelo não podia ficar esvoaçando, o uniforme não podia ficar acima do joelho, nós tínhamos calçados de cor exata, meia... era a disciplina, vamos dizer (Formanda 2). [...] Primeiro a questão da aparência, a aparência física com relação à roupa, o cuidado com os cabelos, evitar pinturas exageradas, não uso de joias, por motivos óbvios, com relação à contaminação, mas, também, não combinava com o uniforme, não se usava joias, apenas o relógio e o cabelo sempre preso e, no começo, ainda havia o uso da touca que era ainda tradicional, a gente tinha que prender os cabelos e usar uma redinha (Formanda 3)1.

A cor branca representa a pureza, usada por cientistas e profissionais de saúde, pessoas direta ou indiretamente ligadas à assistência dos enfermos, por se tratar de cor que não ameaça e transmite ideia de confiabilidade para a realização dos cuidados (12), como também mencionado em outros estudos (5, 13).

Ademais, duas formandas aparentam usar adereços no braço esquerdo (relógio de pulso). Em estudo sobre a imagem pública da Enfermeira-Parteira, na imprensa, ao analisar os ritos institucionais do Hospital Maternidade Pró-Matre do Rio de Janeiro (1928-1931), identificou-se, dentre as representações objetais da enfermeira, o relógio de pulso, que teve o significado de prosperidade em virtude do uso no pós-guerra (1914-1918) (13).

Depreende-se, no caso das formandas retratadas na Figura 1, que, possivelmente, tenha ocorrido a incorporação simbólica dessa representação no decorrer dos tempos, uma vez que o relógio parece compor o uniforme da enfermeira em virtude do uso, de forma completar, nas atividades dos cuidados prestados, por exemplo, para a mensuração do pulso, respiração e controle de gotejamento.

O cenário interno da fotografia é destinado ao culto religioso católico, adornado por quatro vitrais: dois na lateral esquerda e, ao fundo, observa-se outros dois vitrais e um candelabro aceso. O banco, à frente das formandas, apresenta um tecido na cor clara, diferentemente dos demais presentes e dois objetos, o que deixa transparecer serem livros, que podem ser, pela quantidade de páginas, exemplares da bíblia católica.

As formandas apresentam-se com hexis corporal de mãos entrelaçados na altura da cintura ou quadris. Quando as mãos não possuem nada para segurar, o entrelaçar de mãos pode ser tomado como posição que busca conforto e calma, típica em situações em que há exposição do indivíduo (14). Nessa situação, as formandas encontram-se na primeira fileira, com tecido que demarca distinção entre elas e o público, o que as deixa em situação de evidência.

Há indícios de que a EERP-USP sofria influência da disciplina, ensino e, em especial, do aspecto da religiosidade, adotados na Faculty of Nursing (atual Lawrence S. Bloomberg), da University of Toronto (FN-UT), reforçada pela liderança de Glete de Alcântara, oriunda dessa escola e diretora da EERP-USP de 1953 a 1971 (15). No período em que Glete de Alcântara foi estudante, o cotidiano, na fn-ut, iniciava-se às 6h55, na sala de estar, onde uma das professoras ficava responsável pelas orações. As refeições eram circunstanciadas por pompa e rituais específicos a serem seguidos. Minutos antes das 18h30, soava o primeiro sinal, que determinava a reunião das estudantes do hall de entrada do refeitório; na sequência, o segundo sinal demarcava a entrada das docentes e diretora no refeitório; por último, as alunas poderiam adentrar. Quando todos estavam posicionados, a diretora iniciava a oração de agradecimento da refeição, cuja finalização autorizava todos a se sentarem. Quando todos terminavam o jantar as docentes saíam do recinto e, somente após a saída das professoras, as alunas eram autorizadas a deixar o refeitório (2).

As crenças religiosas eram respeitadas, uma vez que a religião católica era minoria no Canadá, mesmo assim, as refeições eram programadas para atender as demandas, como o oferecimento de peixe na sexta-feira e quarta-feira da quaresma (2). Ao se articular o aspecto religioso disciplinar da FN-UT com a ritualística católica de missa, na formatura das formandas da EERP-USP, pode-se inferir a influência da religiosidade advinda da América do Norte, como forma de se sacralizar a profissão e as enfermeiras para o ato do cuidar.

A Figura 2 apresenta as mesmas características da Figura 1 em relação ao local, cor da imagem, composição grupal, formato geométrico, cenário e plano fotográfico.

A Figura 2 apresenta cinco formandas, trajando uniforme, além de aproximadamente 26 pessoas sentadas e duas de pé. As formandas, da esquerda para a direita, são: Vilma Aquino, Geraldina Pásseri, Lydia Ferreira, Luzia Apparecida Urbano e Zaíra Benedini.

Assim como na Figura 1, observa-se o uso de toucas de cor clara, aparentemente de modelo idêntico, aparentam ter os cabelos curtos ou presos, vestidos de tom claro, comprimento do vestido/ uniforme semelhantes, sem uniformidade nas modelagens. Da esquerda para a direita, na Figura 2, a 1a e a 2a formandas usam modelagem de uniforme equivalente à das 3a e 5a formandas da Figura 1. Igualmente na Figura 2, a 3a, 4a e 5a formandas apresentam modelagem equivalente à das 1a, 2a e 4a formandas da Figura 1.

A 1a formanda, à esquerda, Figura 2, ostenta óculos escuros e, ao seu lado, a formanda utiliza óculos claros, possivelmente corretivos da acuidade visual. Nessa perspectiva, o uso de óculos em tom escuro remete à seguinte entrevista: [...] Aqui é a Capela da Santa Casa [...]. [...] Essa foto da missa de formatura batia muito sol (Formanda1)8, provavelmente o uso do óculos em tom escuro deu-se em virtude da claridade excessiva da manhã ensolarada, durante o rito institucional.

As Figuras 1 e 2 se apresentam no mesmo cenário, com foco diferenciado pela lente da máquina fotográfica, com vitrais em temas religiosos e com ornamentos em tecido claro, o que distingue as formandas do público presente. Destaca-se que a segunda fotografia, pela sequência ritualística, pode também ser a primeira. Dito de outra maneira, a ordenação das fotografias não foi considerada, por se entender como objeto de análise a imagem da enfermeira e não o movimento da ritualística católica.

Na Figura 2, identificam-se homens em traje social (terno), característica, à época, que exigia rigor na vestimenta, quando se tratava de um rito institucional. Apesar de, em décadas anteriores, este também ter sido identificado em outros estudos (5). Nesse sentido, quanto mais oficial uma situação é retratada maior o poder de legitimidade de uma expressão dominante, que também pode determinar regras rigorosas, como trajes em situações oficiais, que são acatadas, independentemente do constrangimento que causam, mas que corroboram e intensificam a legitimidade da expressão (8).

A hexis corporal das formandas, em especial da Figura 1, de mãos juntas, pode denotar confinamento simbólico da mesma maneira com a posição de pernas cruzadas, mãos entrelaçadas sobre as coxas, dito na voz corrente, no colo. Nesse sentido, o confinamento simbólico, ao ser decodificado, pode significar recato e pureza (16). Ademais, os rituais são os limites das situações de imposição, pois, por meio de uma competência técnica, pode se exercer uma competência social, que legitima e autoriza o discurso do locutor legítimo (8).

Depreende-se, dessa hexiscorporal contextualizada no rito, o sentido de respeito, principalmente por estar diante de imagens santificadas. Esse comportamento coaduna com a investidura de enfermeiras, ao serem consagradas com uma nova identidade, não mais poderiam adotar a postura de alunas, pois o rito impõe simbolicamente a obrigatoriedade de se apropriar do que se espera ser enfermeira, sua nova identidade, daquele momento em diante.

Ao mesmo tempo, essa identidade está atrelada à hexis corporal própria da classe, assim como o uso de signos exteriores ao corpo. Nesse caso, podem-se incluir as medalhas, uniformes, insígnias e mesmo os signos incorporados, como postura, maneira de falar, o que demarca o espaço desses agentes no campo social (8).

A touca, na década de 1920, na eednsp, esteve associada ao valor simbólico na profissão, que, ao mesmo tempo, identificava a enfermeira e a distinguia dentre as escolas à época, ao conferir obrigações e privilégios, sempre repousada sobre cabelos presos (11). No Canadá, até os anos 1970, uma enfermeira poderia ser reconhecida pelo uso da touca. O primeiro modelo foi a nun's coif, utilizada pelas ordens religiosas que fundaram hospitais em Quebec e Montreal (século XVII). Tinha-se como objetivos, em relação às primeiras cuidadoras laicas, a manutenção do cabelo limpo e arrumado, posteriormente o uniforme foi amplamente adotado, pois perceberam que isso agregava status para o hospital ou escola (17).

Um dos rituais na formação canadense era o capping ceremony, no qual a estudante de enfermagem, por meio de exame, mediante aprovação, recebia sua primeira touca. No rito de formatura, a graduanda recebia outro modelo de touca, com uma listra preta, a tradicional blackcap band. Nas primeiras décadas do século xx, as toucas canadenses se tornaram estilizadas e com forte função simbólica (17). Não foi observada a utilização do friso nas toucas das primeiras turmas da EERP-USP.

Entretanto, a listra ou friso escuro é identificado na cerimônia de formatura da eednsp, em 1925. Sua apresentação refere-se ao momento de graduação, que passou a compor, assim como as canadenses, um símbolo de distinção entre a aluna e a enfermeira diplomada. Dessa forma, passa a constituir, também, capital simbólico, construído durante a graduação, que visava manter o poder exclusivo de "enunciação da imagem da enfermeira brasileira" (5). O ritual passa a ser incorporado e transmitido por gerações dentro de determinados grupos sociais, cujas práticas possuem ordenação definida. Dito de outra maneira, o rito é constituído de certos gestos, palavras e objetos e os presentes acreditam em algo que o transcende (7).

A missa, como ritual, é o momento de garantia da reprodução do reconhecimento da linguagem predominante, a religiosa, pois o ambiente, gestos e palavras devem ser cridos e obedecidos com o objetivo de garantir sua legitimidade. Nesse caso, o sacerdote tem o poder instituído de falar e comportar-se em nome de um grupo (8). Mediante o exposto, observa-se que, em ambas as figuras analisadas, os olhares das formandas se dirigem para o altar, local onde provavelmente estava a figura do sacerdote. Além disso, esse comportamento denota estado de concentração e respeito, requisito para a legitimidade desse tipo de rito.

A recuperação dos significados dos ritos, emblemas e hexis corporal, para se remontar a história da enfermagem, é uma das possibilidades de se evidenciar o efeito simbólico das tradições inventadas, que permite desvelar as relações de poder no campo da saúde.


Conclusão

Vários rituais foram incorporados com o objetivo de contribuir para a formação da identidade da enfermeira e instituir o poder da categoria no espaço da saúde. Para tanto, os signos incorporados pela EERP-USP, na tentativa de se fazer ver e de se fazer crer no rito de missa de formatura, foram o uso do uniforme e da touca, a delimitação do espaço entre as formandas e o público (tecido claro), o que demarca a distinção destas e do público ouvinte que, com uma postura de seriedade e recato, demonstrado em posições de repouso das mãos sobre o corpo, pode ter significado a necessidade de transparecer seriedade e pureza.

Observa-se também a presença de um grande público, o que significa que o evento teve ampla adesão social, provavelmente de familiares e outras autoridades, corroborando o processo de legitimação do rito de passagem da aluna para enfermeira diplomada. As determinações referentes ao traje, provavelmente estivessem restritas à cor, comprimento da saia, mangas, tecido ou modelagens gerais, o que possibilitou que as formandas expressassem sua individualidade na determinação das golas e decote (presença ou não).

Neste artigo reconhece-se a possibilidade de algumas lacunas que merecem investimento intelectual de pesquisadores seja da enfermagem e/ou das ciências sociais, com o objetivo de se ampliar os horizontes e o avanço na construção do conhecimento a ser aplicado na profissão. Por fim, o presente estudo tende a dar continuidade sobre a temática rito de imposição de grau, no qual as enfermeiras não mais trajam seus uniformes, mas, sim, trajes talares.

Agradecimentos: Agradecemos à Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto-USP a disponibilização do acervo para pesquisa e autorização para publicação das fontes.


8 Fonte das entrevistas: Laboratório de Estudos em História da Enfermagem (LAESHE). Coleção Pioneiras: conjunto de entrevistas transcritas com egressas da turmas de 1957 a 1961. Ribeirão Preto; Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo: 2005-2011.



Referências

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